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«Aversão à água», escândalos e D. Carlos quase afogado...

As piscinas para intimidades nos Jogos Olímpicos da Grécia. Os piolhos da Princesa Santa Joana. O Rei que foi ao mar num barril. O escândalo que a tia do marido de D. Maria II causou por usar fato de banho. D. Carlos salvo pelo ajudante de faroleiro quando a praia começava a ser chique. Gago Coutinho campeão na natação. A prisão da nadadora que se atirou ao rio com pernas à mostra.

São do Egipto, das pinturas da rocha de Gilf Kebir, 50 séculos antes de Cristo, os mais remotos registos que há de homens a nadar. No que restou de Pompeia também se descobriram imagens parecidas. Os gregos, apesar de não incluírem a natação nos Jogos de Olímpia, popularizaram-na de tal modo que na Escola de Belas Artes de Paris existe escultura de nadador em acção. Aliás, Platão escreveu que homem que não o soubesse fazer – não poderia ser homem em plenitude. E também se sabe que a piscina do Templo de Olímpia foi construída no século V a.C., tinha 24 metros de comprimento, 16 de largura e 1,60 de profundidade, não era para competição, era espaço para banhos e... «convívios mais íntimos entre os peregrinos, os atletas, os juízes».

No Império Romano tão sagradas e sumptuosas como os coliseus, as famosas termas. Tinham 100 metros de comprimento, 25 de largura – e só na idade média é que a natação começou a eclipsar-se dos espaços de bom tom porque o moralismo cristão decretou que «desvendar qualquer parte do corpo era pecado, obra de demónio». Mais: A.H. de Oliveira Marques contou que nos séculos XIV e XV as populações portuguesas fustigadas pelos surtos de peste bubónica e peste negra viveram momentos de grande pânico – que as afastaram de largo leque de precauções que «incluíam a abstenção dos prazeres sexuais, a moderação no comer e no beber e o uso de poucos banhos». E a sujidade das roupas também se tinha por sacrifício, Oliveira Marques também o exemplificou: «A princesa Santa Joana chegou a usar a mesma camisa durante meses e meses, sofrendo terrivelmente com as legiões de piolhos que se iam criando. O facto é louvado pela sua biógrafa como testemunho da capacidade de sacrifício. Casos como este não seriam porventura raros, mas suscitavam sempre admiração».

Num livro sobre a vida e os costumes dos portugueses, lançado em 1828 por um comissário do exército inglês, revela-se: «A terapêutica portuguesa recomenda os banhos para todas as espécies de doenças ou incómodos; e talvez algumas façam bem. Porque, se não fosse isso, nove décimos das mulheres de Portugal nunca teriam experimentado uma ablução desde a primitiva baptismal; nem mesmo uma simples lavagem de cara, de manhã, com uma toalha. Esta última operação efectua-se geralmente sem grande rigor, molhando elas levemente na boca a ponta de um lenço ou de uma toalha, e esfregando-a nas faces, sobrancelhas e nariz. Os homens têm uma espécie particular de sujidade, que consiste, entre outras coisas, em não se barbearem mais de uma vez por semana. Por isso, muitas vezes os vemos com barbas com cerca de uma polegada de comprimento, negras, ásperas, e parecidas com escovas de fato».

D. João VI num... barril e o escândalo da filha de imperatriz!
Crónica de 1803 mostra que D. Francisco Pereira Coutinho, Bispo de Coimbra, já tinha por hábito «ir a banhos à Ericeira» - e sete anos depois um médico aconselhou D. João VI a tratar de perna infectada por um carrapato numa praia deserta do Rio de Janeiro. A custo aceitou, que tinha medo dos... caranguejos. Colocou então uma condição: entrar na água dentro de um... barril. E foi isso mesmo que aconteceu. Fugira para o Brasil na sequência da invasão francesa de Junot – e governava de lá Portugal devido à doença mental da mãe, D. Maria I.

Essa ideia de que a água salgada era terapêutica lançara-a um frade médico inglês: John Floyer, que acreditava que o Canal da Mancha tinha poderes milagrosos até para paralíticos, «com as suas correntes tão tempestuosas e as suas imponentes marejadas». Certo é que foi assim que se começou a desfazer, subtil, a «aversão à água». Em 1810, Lord Byron, o poeta inglês que se encantou por Sintra, atravessou o estreito de Dardanelos nadando 1960 metros em pouco mais de uma hora — e a sua proeza, por alguns cronistas de então considerada «fabulosa», pôs outra vez o Mundo inteiro a falar de natação, fascinado por ela. Vinte sete anos depois, a Sociedade de Natação de Inglaterra já organizava provas oficiais, em seis piscinas artificiais espalhadas pelo país.

No verão de 1812, a escritora Hortense de Beauharnais escandalizou a sociedade farncesa ao aparecer na praia de Dieppe com um conjunto de tricô composto por calças largas apertadas no tornozelo e uma túnica com mangas, que ela própria desenhou. Era filha de Josefina que depois de perder o primeiro marido na guilhotina, se casou com um general chamado... Napoleão de Bonaparte. Assim se tornou imperatriz – e a filha, Hortense, rainha da Holanda, por casamento com Luís de Bonaparte, irmão de Napoleão. Augusto de Beauharnais, sobrinho de Hortência, casou-se com D. Maria II em 1835, foi nomeado marechal do exército e Par do Reino – e dois meses após o matrimónio com a rainha de Portugal morreu no Palácio das Necessidades, fulminado por uma angina...

Do «banho chic» ao «banho dos pobres»...
Menos de meio século passado – em Portugal a praia dessatanizava-se, transformava-se em teatro onde a sociedade se revelava e evidenciava os jogos e os ritos em que se baseava – encenando símbolos, costumes, normas, convenções, divisões, alianças, caprichos, sentimentos, transgressões. Espinho foi dos primeiros «espaços de ostentação do novo poder burguês». Mal o céu se tingia de alvorada, começavam os “os salutaríssimos banhos de mar”. O “banho chic”, “o banho tom”, o “banho da gente d`algo” era entre as nove e as onze da manhã, por estar já mais quente a água – num ritual que durava pouco: «os homens dirigiam-se para o mar e recebiam o embate, varonilmente, a pé firme, para o mergulho da ordem, enquanto as mulheres chapinhavam nas águas e uma ou duas mais animosas, molhavam a cabeça. Para os mais receosos existia a “gamela”, que depois de cheia era despejada pela cabeça, e a selha de madeira para mergulharem os pés...»

«Banho dos pobres» apenas pela madrugada, antes de os ricos chegarem. Com o vestuário que utilizavam no quotidiano. Os outros, os nobres e os burgueses não, mudavam-na em barracas de madeira pintadas de cores vivas, para a água levavam «uniforme amplo, hermético, maciço, cortado em flanela azul, de xadrez, com debruns de nastro branco, os homens; uniforme composto de touca, também de flanela, também debruada de nastro; sobrecasaca do mesmo tecido, a abrir em boca de sino, por obra do folho repuxado sobre o pé; o pé por seu lado, a branquear sobre o folho e sobre o sapatinho de pano, as mulheres».

«Banhos de choque», com os banhistas levados à água «nos braços de um banheiro ou transportados por dois em cadeirinha que de forma coordenada os mergulhasse», recomendava-se para vários tipos de doença: anemia, raquitismo, depressão. Por exemplo, na Nazaré aconselhavam-se «para os achaques dos ouvidos, cinco banhos diários». E garantia-se que «se deviam usar as praias que ficavam entre Buarcos e São Martinho do Porto e as do Cabo da Roca, de Sines e de Albufeira».

Torre de Espada e 4 libras por salvar D. Carlos
José Eduardo de Magalhães Coutinho era professor de obstetrícia na Escola Médico-Cirúrgica – e tornara-se famoso por ter sido pioneiro no uso do clorofórmio para anestesia de partos. Fora ele que assistira ao nascimento de D. Carlos à uma e meia da tarde de 28 de Setembro de 1863 na «sala verde» do Palácio da Ajuda. Dez anos depois, quando D. Maria Pia tomava banho com os filhos no sítio do Mexilhoeiro – D. Carlos e D. Afonso foram arrastados por uma onda. A rainha, tentando salvá-los, estava quase a ir pelo mesmo caminho, para o fundo do drama. De súbito surgiu na praia António de Almeida Neves, o ajudante do faroleiro da Guia. Atirou-se, lesto, à água e resgatou os três. Deram-lhe a Torre e Espada e uma pensão vitalícia de quatro libras por mês. No dia seguinte, os príncipes já estavam a aprender a nadar...

O empresário das 3.45 horas na travessia do Tejo
Em 1875, Mathew Webb, capitão do exército real, lançou-se à água em Dover e 21.45 horas depois pisou terra em Griz Nez. Nasceu com ele o herói da Mancha - o primeiro homem que ousou ligar os 20 quilómetros que separam Inglaterra de França. Por essa altura, deu-se revolução no modo de nadar, a quebra do estilo clássico, à cão. Frederick Cavill, que era já o mais renomado nadador inglês, emigrou para a Austrália e ficou basbaque ao ver o modo como nadavam os autóctones das ilhas dos mares do Sul.

Regressou, ensinou o método aos seus filhos, que num ápice se tornaram invencíveis na Europa. E depois na América, para onde foram viver — espalhando o crawl. Crawl chamou um deles ao estilo por considerar que nadar assim era como deslizar (crawling) sobre a água. Foi mais ou menos por essa altura que Lisboa se exaltou com a proeza de José Bento de Araújo Assis – fundador da Companhia Lisbonense de Estamparia fez riqueza como um dos primeiros empresários de açouges da cidade. Escrevera para teatro dramas de grande êxito, por vezes fora actor – e como nadador tornou-se ainda mais popular quando num misto de aventura e exibicionismo atravessou o Tejo, entre o Terreiro do Paço e o Barreiro, em 3.45 horas - reeditando a saga de obscuro marinheiro que em 1381 fizera parecido, levando ordens militares para o Forte de Almada, por não haver outras possíveis comunicações com a margem sul, visto o rio estar vigiado por uma frota castelhana!

Dos banhos da Casa Pia à toilette e às espanholas
Decisão da provedoria da Casa Pia de Lisboa. Ginástica já havia – como não havia em nenhuma outra escola em Portugal -, a ideia foi que os seus alunos passassem a «ir a banhos» na praia da Torre de Belém. Para tal se contratou um banheiro – e o ensino da natação ficou a cargo de Jean Roger, o francês que era responsável pelas «actividades gímnicas» - e há um relatório que conta que nesse primeiro ano de 1880 os banhos de mar foram 12.083.

A ida às praias generalizara-se como divertimento a partir dessa década de 80. Para Ramalho Ortigão, Pedrouços era a praia dos amanuenses, Cascais a da Família Real e alta nobreza – e designava aristocrata o «indivíduo que tinha certos hábitos de vida, certos desvelos de roupa branca e toilette». Eram os de Paço d´Arcos – onde havia um clube em cujo salão se faziam soirées ao sábado. As espanholas, consideradas mulheres fáceis, paravam pelos bailes – e Ramalho brincava: «Assim como pela manhã se pergunta para o banho – há maré? – assim à noite se pergunta para o baile – há espanholas?»

Gago Coutinho, campeão de natação e... saltos
Mais ou menos organizada, a natação apareceu em Portugal por iniciativa do Real Ginásio Clube de Portugal, que em 1902 inaugurou uma escola na Trafaria dirigida por Walter Awata – e 15 de Outubro de 1906, antes sequer da fundação da Liga de Natação, fez disputar no Alfeite o denominado primeiro Campeonato Nacional. D. Carlos, que fora um dos entusiastas da ideia de abrir a modalidade no clube, marcou presença. Ficou tão entusiasmado com o espectáculo da «meia milha» que convidou todos os nadadores para outra prova no dia seguinte, na baía de Cascais, oferecendo os prémios. Alfred Rumsey, o britânico que fora um dos fundadores do FC Porto, mas que no Alfeite estivera em representação do Real Vello Club do Porto, ganhou outra vez.

Um dos derrotados foi Carlos Gago Coutinho – que também entrou nos saltos para a água, ficou em segundo lugar, batido por António de Sousa Monteiro. Nascera às 3.30 da madrugada de 17 de Fevereiro de 1869, na Calçada da Ajuda. «Meu pai era um homem de reduzida educação literária. Só a primária, mas conhecia escrita comercial, em que praticava. Sargento de mar-e-guerra até 1873, serviu na nau Vasco da Gama e na fragata D. Fernando. Era homem alto, desempenado, bem branco. (...) falecendo em Lisboa com 93 anos. Meus avós eram livreiros em Faro.(...) De minha mãe, senhora pequena, algarvia, filha de padeiros, e que devia ter ascendência moura, nada mais sei a não ser que um irmão dela era patrão de um cahique da costa (...).(...)Desde os 8 anos que foi minha mãe adoptiva uma amiga de minha mãe, D. Maria Augusta Pereira, falecida em 1914.»

Adolescente, dedicou-se à ginástica de aparelhos no Real Ginásio – e na velhice ainda trabalhava com as argolas montadas numa trave do tecto na Rua da Madragoa, onde vivia, para se manter em forma. Devido ao pouco dinheiro da família, não pôde fazer o que sonhara: curso de Engenharia na Alemanha. Terminou o liceu, alistou-se como aspirante na Marinha – e foi assim que conseguiu fazer o curso, terminou-o na Escola Politécnica, em 1888. Dois anos depois, já era segundo-tenente – e campeão de natação. Dedicou-se à geografia e à navegação aérea astronómica – e numa missão a Moçambique em 1907 conheceu Sacadura Cabral – e com ele fez a travessia aérea do Atlântico Sul, de Lisboa ao Rio de Janeiro.

O crime das pernas à mostra...
Ainda antes da República pelos jornais começaram a aparecer anúncios de «fatos de banho modernos» - para homem eram «de malha, às riscas, até ao joelho, tapando os ombro, descobrindo os braços do cotovelo para baixo» e custavam entre 800 e 940 réis. Para mulher, continuavam quase como se fossem vestidos: «de boa castorina, casaco e calças enfeitados com fita» e preços entre os 2500 e os 2800 réis. Sim, claro: esses já não eram como os de Hortense de Beauharnais, as calças foram encurtando, as mangas das túnicas também, mantinham-se, contudo, os cintos para... «acentuar as cinturas de vespa»!

Numa crónica de 1900 sobre o «mundanismo e o snobismo de Cascais, do Monte Estoril e da Parede», pingo de indignação pelo que se começara a ver: «Parece-nos incompatível com a delicadeza de sentimentos e o pudor, que as senhoras nadem por aí em águas públicas à vista de toda a gente». Cinco anos passados, Annette Kelleman atravessou o rio Sena usando unicamente um corpete em malha, sem mangas, com decote redondo e mini-calções tapados por mini-saia. Nascera em Marrickville, o pai, violinista, era de lá, da Austrália, a mãe, pianista, era francesa. Aos seis anos, fraqueza de pernas obrigou-a ao uso de cintas de aço – e para tentar superar a deficiência foi nadar para o clube de banhos de Frederick Cavill. Aos 13 já tinha as pernas normais – e aos 15 nadou as 110 jardas em 1.22 minutos e a milha em 33.49. Em qualquer dos casos, nunca mulher fora tão rápida – mas nenhuma das marcas é aceite pela FINA como recordes mundiais, porque, por essa altura, Kelleman já era considerada profissional, dava shows de ballet em água em tanques de vidro – e foi assim que criou a natação sincronizada.

Em Agosto de 1905, no ano do escândalo, foi a primeira mulher a tentar a travessia do Canal da Mancha – desistiu a meio, murmurando: «ainda tinha resistência, mas já não tinha a força bruta para chegar lá». Dois anos depois, foi presa em Boston – ao tentar entrar numa competição com «maillot» inteiro apenas, sem mangas e discreto decote, que ela própria desenhara e pensara comercializar. Acusaram-na de... «nudez», por ter as pernas à mostra. Por essa altura, depois de analisar cientificamente 3000 perfis, Dudley Sargent, professor da Havard University, considerou que a mulher perfeita, a mais semelhante à Vénus de Milo era Annette Kelleman. Casou-se com um milionário – tornou-se actriz. Em 1916, em A Daughter of the Gods, filme da Fox que custou um milhão de dólares, entrou para a história do cinema – por ter feito a primeira cena de nu integral. Vegetariana, lançou em Long Beach a primeira loja de produtos naturais da América – e ganhou uma estrela no Passeio da Fama de Hollywood. Nos anos 70, voltou à Austrália – e continuou a nadar todos os dias até morrer.

Mas foi preciso esperar ainda alguns anos para que Portugal tivesse uma campeã de natação, mulher a competir na água – já bem depois dos maillots inteiros, sem mangas e decote discreto de Coco Channel marcarem o fim das rendas e dos espartilhos...

Bessone, herói por 10 escudos
Com a monarquia a sufocar, o entusiasmo pela natação agitou-se. Não havia piscinas – e as travessias do Tejo e do Douro, sobretudo essas, acabaram por consagrar o seu primeiro grande nome: Rodrigo Bessone Bastos. Em 1913 ele fundara com Domingos Veloso de Lima, Albano Pimenta Araújo e Mário de Almeida, um grupo de... futebol: o Sporting Club Dafundo. Convidaram-nos para um jogo nos Olivais – mas como não tinham gente que chegasse para fazer uma equipa pediram reforços ao Algés Football Club. O que se repetiu uma e outra vez e então decidiu-se: fusão. Nasceu assim o Sport Algés e Dafundo, a 19 de Junho de 1915. Rodrigo Bessone também nadava, treinava-se na praia de Algés. O Ginásio Clube Português organizava a Travessia do Tejo entre a Trafaria e o Bom Sucesso desde 1906 – e nos últimos anos tivera um vencedor crónico: João Formosinho. Domingos Lima lembrou-se de levá-lo lá. Para isso era preciso alugar uma chata que o transportasse até à outra margem – e o marinheiro pediu 10 escudos pela viagem. O clube não tinha dinheiro – e ao ver Lima tão agastado por isso, Eugénio Picardo, seu amigo, pensou numa solução de recurso. Tinha um anel que a mãe lhe deixara ao morrer, aceitou pô-lo no prego, se Lima lhe garantisse que no final do ano lhe daria 5 escudos para o resgatar. Assim foi.

Fez-se a prova – e com o primeiro nadador a chegar lançaram-se foguetes, gritou-se, em euforia, o nome de Formosinho. Engano – quem ganhou não foi ele, foi Bessone. Que até 1926 não perdeu uma prova de mar feita em Portugal...

Por António Simões, Jornal a Bola