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D. Luís e D. Carlos campeões de vela e a incrível história do barco serrado ao meio
Vem de longe, do século XVIII a paixão de reis e príncipes pelas «cousas do mar». D. João V casou-se com a filha do imperador da Áustria – e ir ver os barcos foi uma das mudanças na corte. Que a ala conservadora não gostou muito, mas pior foram as danças que também se fizeram. D. Luís deu o nome ao clube mais antigo da Península Ibérica – e com um iate «todo nacional» espantou Nice e não só.
No seu livro Quadros Navais, Celestino Soares conta que a paixão real por barcos e mares vem de longe, muito longe no tempo - que D. João da Bemposta «andava constantemente pelo rio no seu iate, acompanhando os navios de guerra que entravam e saiam». Ele foi um dos filhos legitimados de D. Francisco Xavier de Menezes – irmão de D. João V. Bemposta lhe chamavam – por viver no Real Paço da Bemposta. Foi mordomo-mor de D. Maria I – e «capitão general das armas reais e galeões de alto bordo». D. João V reconheceu-o como sobrinho, deu-lhe todos esses altos cargos na Coroa, mas não lhe permitiu herdar os bens do pai...
Com D. Mariana se casou D. João V – e para Lisboa ela foi trazida da Áustria por uma armada de 14 naus do Conde de Vilar Maior, Fernão Teles da Silva. Ambos tinham também o «prazer do mar» - e por isso, quer o rei, quer a rainha «subiam a bordo dos navios ou iam vê-los a sair a barra e na falta destes espectáculos divertiam-se a passear pelo Tejo nos bergantins reais, seguidos de faluas com atabales, trompas, rebecas e outros instrumentos». Fora novidade – que espantara e agitara a sua ala mais conservadora. Isso e um outro hábito que se notou logo à sua chegada – e que revelado aparece em O Amor em Portugal: «Mariana d´Austria chegou com seus jesuítas, seus cães, a sua fealdade, seus cravos holandeses. A corte de D. João V surgiu, nova, e se formaram dois partidos; o da moda nova, chefiado pelo Conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Menezes, homem elegante e jovial que queria que as senhoras se deixassem ver e conversassem nas antecâmaras, que jogassem e bailassem; e o da moda velha, pelo Conde de Vimioso, azedo e formalista, devoto e taciturno, o lar igual a um mosteiro, a virtude igual a clausura, a mulher igual ao diabo; pregando retiro, silêncio e recato e detestando o comércio entre senhoras e cavalheiros. No dia de São Carlos, as salas dos Tudescos, dos Embaixadores e dos Leões se abriram e inundaram de luz, enchendo-se de panos de rás, as damas entraram aos bandos, tímidas, acanhadas, pois pela primeira vez desde D. Manuel homens e mulheres se cortejaram nas salas do Paço. A Rainha tocou cravo; dançou a infanta D. Francisca, gorda, corada e empoada. Desde esse dia, houve profunda modificação na moral da Corte, sedução, graça, elegância, intriga». E pouco tempo passado, a 10 de Novembro de 1708, D. Luís Manuel da Câmara escreveu numa carta a D. Luís da Cunha: «Houve um baile no dia de São Carlos em que dançaram e cantaram as damas do Paço na presença de damas e fidalgos; el-Rei está teimando em estrangeirar o nosso país e não sei até onde acabará...»
Dois anos passaram João e Mariana sem filhos, o rei fez voto a Santo António – e em 1711 começaram a nascer os cinco filhos que teriam. E foi por isso que mandou construir, em acção de graças, Convento de Mafra – e disso fez história José Saramago no Memorial do Covento. O terceiro deles – e sucessor do pai foi D. José. E ele, o rei que fez do Marquês de Pombal seu famoso primeiro-ministro e a rainha, Mariana Vitória, «nunca deixavam de assistir ao caimento dos navios que eram lançados ao mar depois de construídos e que para se deslocarem do Terreiro do Paço a Belém preferiam os bergantins aos coches Reais», também assegurou Celestino Soares.
Vela e remo e o Rei da Associação Naval
José Pontes em Quasi Um Século de Desporto revelou que em 1949 houve uma «regata a remos» - e que no ano Abel Power Dagge, Edward Shirley, Alex Hudson e Alex Hangcock aproveitaram a estadia da nau britânica Vixen fizeram também no Tejo a Primeira Carreira de Barcos à Vela. Nela entraram cinco veleiros, todos ingleses. E a partir daí – nas regatas de Paço de Arcos, organizadas pelo Conde de Alcáçovas, não mais deixou de se ver D. Luís. Nessa altura ainda não herdara a coroa do irmão D. Pedro V – seria aclamado apenas em 1861 – servia na Marinha, comandava o brigue Pedro Nunes e a corveta Bartolomeu Dias. Era homem culto – pintava, compunha, tocava violoncelo e piano e traduzia obras de Shakespeare. E foi ainda como Duque do Porto que presidiu à reunião que serviu para a fundação da Real Associação Naval de Lisboa – em 1856. Aliás, a ideia do nome que estava em marcha era Real Yacht Club - alterou-se por sugestão sua.
Bêbado, quis metade do barco...
Antes ainda, em 1854, voltaram as «corridas a remo» - ganhou-as Frederico Burnay. Frederico, tio de Henry Burnay – que se tornara já famoso como construtor naval e armador. E também ganhou, dois anos volvidos, a primeira prova organizada pela Associação Naval de Lisboa, recebendo troféu de prata de D. Pedro V. De ambas as vezes com o mesmo barco. Que primeiro se chamava Etoile du Nord e depois O Mesmo. Mudou porquê? Porque A. I. G. Netto, seu sócio na Parceria dos Vapores Lisbonenses, após uma noite bem bebida quis acabar com a sociedade – sugerindo que se serrasse a embarcação ao meio. Foi o que Frederico de Burnay fez – e quando lhe perguntou que parte queria então, Netto espantou-se. Não se lembrava de nada – pediu desculpa, encarregou-se da reparação do barco e determinou: «depois de pronto, chama-se O Mesmo»....
Continuaram com cada vez mais frenesim as provas da Real Associação Naval – e em 1858, D. Luís participou nelas com o seu novo iate - o Veloz. Mandara construí-lo com base no modelo do Prenda, que recebera de oferta de J. Garland, Abel Power Dagge e Simão Aranha, cópia reduzida do iate América que aportara em Lisboa. Não mais deixou de patrocinar e entrar em regatas de vela – e remo...
Fluvial Portuense ou o Real da polémica...
Em 1875, David José de Pinho tinha um escaler a quatro remos chamado Tamisa – que batia todos os que se lhe opunham em regatas no Douro. Depois de uma dessas vitórias, juntou-se com amigos no Café de Santo Amaro, no Porto – e após o café decidiram fundar clube para remo e vela. Chamaram-lhe Fluvial Portuense.
À competição da Real Associação Naval no Tejo – foi o Tamisa e... ganhou. D. Luís, estivera lá, à borda da água, a ver, ficara encantado. À noite, havia festa num palácio – e o rei também foi. Apercebeu-se de que os rapazes do Porto não estavam, perguntou por eles, alguém, comprometido, lhe disse que fora esquecimento. D. Luís mandou buscá-los ao hotel, que se indignara com a desconsideração, murmurara. Quando David de Pinho chegou ao banquete, o rei correu para ele, perguntou-lhe:
- Ficaria satisfeito se ao vosso clube fosse dado o título de Real sem pagamento dos direitos de mercê ao Estado?
Claro que o oferecimento foi aceite. Marcos Guedes tornou-se, entretanto, o grande dinamizador do Fluvial. O clube era de grande elite – e de grande disciplina militar. Dois dias antes das competições, todos os remadores eram obrigados a enclausurarem-se nas suas casas – «para não fazerem asneiras», estava no regulamento. Se não cumprissem – eram «fortemente castigados, expulsos até». E uma vez Marcos Guedes foi suspenso só porque se recusou a escrever antes de Fluvial a palavra Real com que embirrava, nunca o disfarçou. Fora ele que levara para lá Cândido dos Reis, para seu associado e praticante, o almirante que se suicidou a 5 de Outubro de 1910 por julgar que o golpe republicano fracassaria uma vez mais – e se enganou...
Sírius, o iate que fez do rei campeão
Já rei, D. Luís mandou construir no Telheiro das Galeotas Reais o Sirius, embarcação que fez questão de tudo nele ser produto nacional, desde o risco às madeiras. Ao seu ajudante de ordens, o capitão-tenente Carlos Augusto de Sousa Folque Possolo coube o encargo de planear e dirigir a construção – que confiou a a Tomás António Gonçalves, mestre carpinteiro do Arsenal da Marinha. Foi lançado à água em 14 de Abril de 1877 e a primeira regata em que participou foi em 4 de Setembro de 1877 - num percurso de 75 milhas determinado por D.Luis. Por falta de vento teve de ser repetida, sete dias depois – e o Sírius acabou desclassificado por... «transgredir o regulamento». E no ano seguinte, venceu a Regata da Real Associação Naval de Lisboa ainda aparelhado em caíque. E na edição de 1 de Outubro de 1878, o periódico OCCIDENTE relatou em tom épico, bem ao jeito da época, a vitória do Sírius a... 15 de Agosto:
«Foi vencedor, foi rei na ultima regata, sulcando as aguas da barra. Haviamos-lhe vaticinado essa glória. Nem vento nem mar o affrontam: só a calmaria lhe tolhe os movimentos, o faz gottoso... Representando a mais brilhante das estrellas fixas de uma das constellações que matisam o céo, sustentou - na região das aguas - o seu poderio, impedindo o passo ao Touro e o vôo à Aguia! Alcyon e Althair, baptisados sob a influencia de outros grupos luminosos foram dignos rivaes do symbolisador da Canicula, consoante o dizer popular. Foi-lhes cerbéro, se nos é permittido transferir o Inferno para a parte liquida do globo...
Agora a regata, em corrida de 40 milhas!
Eil-os, em posição, rebrilhando com o sol no zenith, os adversários do famoso torneio, o alvo de uma povoação maritima enthusiasmada, os veleiros: Sirius, Althair, Alcyon e Mina. Balanceiam-se aguardando o signal de partir como inquietos corceis de raça em vistoso hypodromo. Ao troar do canhão, mandando preparar, despedaçam o junco que lhes enleia as velas com a prestesa da pomba, ensaiando vôo, para se desprender d'um fio de seda! Novo tiro de peça dá movimento, aos insoffridos, em espaço balisado. Lá vão, sendo primeiro Althair e ultimo Mina. O Sirius entra no terceiro logar da fileira. Mas, em pouco tempo avança, avança sempre até meia distancia da balisa do Pato. Acalma-lhe ahi o vento, e os mais bonançosos passam para a frente, aproveitando - quanto possivel - o batter das azas do seu rival. Consegue fazer a volta, retoma a dianteira, singra para o norte, é já de uma milha o affastamento!... Estáca um segundo, aprôa a Cascaes, seguem-lhe todos o movimento. Arriba! arriba todo, mette-se entre o Mina e o vapor da commissão; passa primeiro a balisa de Rana! Bravo, Sirius; bravo timoneiro! Demanda novamente a balisa do Pato, perde caminho,sentindo os effeitos de uma calmaria importuna, os inimigos aproximam-se, ganham-lhe vantagem. Não importa, a volta faz-se, o vento reapparece, o Sirius espaneja-se, agita-se quanto póde; está em Cascaes, tem minuto e meio de avanço! Entretanto o Mina quer por sua vez cortar a prôa ao inimigo. Descarrega bordada sobre o Althair e deixa-o desasado... É alma d'este barco (a pachorrenta Prenda convertida em Aguia) o nosso amigo e camarada Teixeira de Carvalho. Apesar de empandeirado, para fóra de combate, agradeceu o acaso. Desejava vencer o Sirius mas não queria vel-o perder... Excellente coração, dedicado servidor!
O incidente não affrouxa a coragem dos luctadores. Realisa-se a terceira investida; está rija a nortada. Os barquinhos gemem, rasgam com a quilha o seio da vaga, disputam o passo nas balisas de Rana e Pato, mettendo agua até á bracola do poço!... Terceiro tiro annuncia o termo da corrida. Hurrah ! Hurrah ! pelo Sirius, faz écco em toda a villa de Cascaes. Alcyon apórta com 17 minutos de differença; mal podia aguentar o traquete ...
Consta que El-rei, vencedor sem constestação, deseja que o valioso premio, conferido ao seu barco de recreio, seja incentivo para nova liça entre os vencidos.
Nobreza de rei e generosidade de marinheiro.»
No palácio... «barquinho com rodas»
Em 1879, apesar de se terem realizado várias regatas por Portugal, o Sírius não entrou nelas porque se provara que tinha andamento muito superior ao de todos os outros iates. A sua fama transbordou fronteiras – e D. Luís inscreveu-o para as Regatas Internacionais de Nice. Por causa do mau tempo chegou tarde a França – e não pôde tomar lugar na competição. De regresso a Portugal arribou a Marselha e aí correu contra o iate francês Eugenie batendo-o num percurso de 8 milhas por 45 minutos, saltou para as primeiras páginas de vários jornais franceses. De seguida, largou de Gibraltar ao mesmo tempo de um iate inglês e cruzou a Lisboa com grande avanço. A notícia da proeza chegou a Inglaterra - e dois dos seu melhores iates: a escuna Cetonia e o iole Gestrude largaram a Lisboa – para o desafiar. A 16 de Outubro de 1880 a Real Associação Naval organizou a regata, os ventos não foram favoráveis, o Cetnia e o Gestrude chegaram primeiro. Em 1887 o Sírius armou em palhabote – e já no século XX foi-lhe adaptado pequeno motor de modo a facilitar as manobras de entrada no porto e em Setembro de 1912 foi entregue à Escola Naval para instrução dos aspirantes.
Não espanta, pois, que, pequeninos, D. Carlos e D. Afonso tivessem já um... «barquinho com rodas» para seu uso na «sala de brincar» do Palacio da Ajuda. E quando Carlos fez 17 anos, D. Luís ofereceu-lhe um iate a sério. Nautilus o baptizou, inspirado nas Vinte Mil Léguas Submarinas de Verne. Com esse palhabote vários triunfos teve, notável o de 1885 contra o Yawl Vega. Achando-lhe pequenas as dimensões, substituiu-o pelo Aura, yawl de 40 toneladas, com que venceu as Regatas de Cascais de 1887, 1888 e 1890. Já ao leme do Lia em 1893 chegou em primeiro lugar na Corinthian Race entre Cascais, S. João do Estoril e Cabeça de Pato. Dois anos depois ganhou a Regata do Centenário de Santo António batendo o Marquês de Torcy.
Taça Vasco da Gama, último sorriso de D. Carlos
No âmbito das comemorações do IV Centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, D. Carlos incumbiu a Sociedade de Geografia de Lisboa de encomendar à Casa Leitão, seu fornecedor de ourivesaria, a concepção de uma obra de arte, destinada a um «prémio perpétuo» para regatas internacionais de vela: a Taça Vasco da Gama.
Na primeira edição, em 1898, o seu Lia competiu contra o Ketch Caridad de Lord Dunraven, num percurso de quatro balizas colocadas em Cascais, Ponta de Rana, Cabeça do Pato e Oitavos – e a perca do mastaréu do traquete logo no início da corrida invalidou-lhe a hipótese de vencer. Na segunda edição, em 1901 voltou a ser derrotado pelo Yawl Leander de Rupert Guiness. Em 1907, enfim a vitória na Taça Vasco Gama – correndo no Maris Stella, que adquirira em 1901 para dar de prenda a D. Amélia. Meses depois, foi assassinado – e a Taça Vasco da Gama não voltou mais a disputar-se está guardada no Clube Naval de Lisboa, de que era o comodoro, em sua memória.
Humilde e macabúzio, fatalista e sonâmbulo...
Quando Alfredo da Costa e Manuel Buíça mataram D. Carlos no Terreiro do Paço continuava o país como, ao virar do século, Guerra Junqueira, dissera que estava – ou talvez pior. Como é que era? Ele dizia, desencantado, que era assim – decadente e derrotado:
«Dois partidos monárquicos, sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, na hora do desastre, de sacrificar à monarquia ou meia libra ou uma gota de sangue. Um partido republicano composto sobretudo de pequenos burgueses da capital, adstritos ao sedentarismo crónico do metro e da balança, gente de balcão, não de barricada, com um estado-maior pacífico e desconexo de velhos doutrinários, moços positivistas, românticos, jacobinos e declamadores.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal.
Um clero português desmoralizado e materialista, um clero jesuítico, estrangeiro ou estrangeirado, força superior cosmopolita, invencível, adaptando-se com elasticidade inteligente a todos os meios e condições. Um exército que importa em 6000 contos não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica.
Um povo humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai, um povo que eu adoro, porque sofre e é bom.
Um regime económico baseado na inscrição e no Brasil, perda de gente e perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do parasitismo de si próprio.
Humanizar o ensino, nacionalizar a indústria, um clero português e cristão, a justiça fora da política, o exército fora de S. Bento, os burocratas para a burocracia, o professorado para as escolas, o poder legislativo entregue às forças independentes e vivas do País, arrotear o solo, colonizar a Africa — tudo era possível, tudo era simples desde que nos dessem uma fé, uma crença, vida luminosa, uma alma!»
Por António Simões, Jornal A Bola