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Do escândalo e do sangue ao primeiro torneio de esgrima
Esta é uma viagem impressionante – a caminho do primeiro torneio de esgrima que se fez em Portugal. O Frei Capacete que Gil Vicente tornou símbolo de devassidão na Barca do Inferno. O rei que fugiu de mulher que o desafiou para duelo – e a história de outras duas a lutarem de peitos nus por um duque. O retrato de D. Carlos, o esgrimista que acusava «com bonomia todos os golpes que levava».
Quando Gil Vicente escreveu o Auto da Barca do Inferno pôs lá um frade: Frei Babriel. Capacete lhe chamavam – por causa do apetrecho que usava na cabeça para terçar armas. Não era só esgrimista e brigão, também era mulherengo e mundano e dançarino de tordião – por isso representava devassidão do clero regular. E algures na peça, Diabo, o arrais da barca, desafiou-o: «Dê vossa Reverência lição de esgrima que é cousa boa». O seu tempo era o tempo em que Afonso de Albuquerque conquistara Goa e Vasco da Gama se preparava para ser vice-rei da Índia – e a esgrima tinha importante papel social e não só. Para se ter ideia apenas em 1562 morreram na Índia 50 fidalgos portugueses em «pendências motivadas por questões de honra». Mas bem antes disso, já Fernão Lopes contara nas suas crónicas que D. Dinis proibira desafios e combates à espada a menos de cinco léguas do local onde o rei se encontrasse – para evitar frenesins e escaramuças. E também revelara que não era apenas espaço marialva, que havia no reino «mulheres esgrimidoras»: a Inês Preta ou a Soromenha do Algarve. E a partir daí há um rosário imenso rosário de histórias várias metendo espadas e duelos, nobres e espadachins presos e mortos em brigas e rixas.
D. João IV e o mistério do duelo...
Por exemplo, Aires de Campos contou a cena em que D. João IV, depois de restaurar a independência, se bateu com o escritor D. Francisco Manuel de Melo – por esconsa questão passional: «Dizem que a má vontade com que el-rei se mostrou a D. Francisco procedera de se encontrar com ele uma noite na porta do Pátio das Colunas que está nas casas contíguas ao Limoeiro em que morava então a Condessa de Vila Nova (senhora de muito bem faze a quem lho pedia) e porque tinha dado ponto, senha e hora, uma noite a D. Francisco Manuel e deu a mesma em tudo a el-rei que tão bem era opositor, não sabendo um do outro, pretendendo subir a escada ambos ao mesmo tempo e não querendo ceder qualquer deles, vieram à contenda das espadas brigando igualmente com esforço e ventura; cansados suspenderam a contenda e acudindo gente se retiraram ambos por não serem conhecidos, sem embargo que el-rei conheceu a D. Francisco e D. Francisco não conheceu el-rei nem sabia que era opositor aquela empresa».
Ferido num punho, D. João IV nunca mais se esqueceu da afronta. D. Francisco tinha um criado, João Vicente, que despediu. Quando Vicente soube que Francisco Cardoso, mordomo do conde de Vila Nova de Portimão, andava de relações com a sua mulher, matou-a – e mandou matar Cardoso por três homens. Presos, dois deles disseram, combinados com Vicente, que fora D. Francisco Manuel quem os induzira ao crime – e D. Francisco, depois de 11 anos a ferros em Portugal, sem que lhe aceitassem apelos e recursos, em Abril de 1655, partiu para o «degredo perpétuo no Brasil». Três anos lá esteve – e quando D. João IV morreu escapou-se para os Açores. Na prisão escrevera a sua famosa Carta de Guia de Casados – e quando em 1622 o Conde de Castelo Melhor tomou o governo, amnistiou-o, a coroa encarregou-o de várias missões diplomáticas, uma delas do casamento de D. Afonso VI com princesa francesa.
Do Marquês de Pombal à ilegalidade
E Eduardo Nobre revelou no seu livro Duelos e Atentados – como até o Marquês de Pombal, quando ainda era apenas Sebastião José de Carvalho e Melo, se deixou levar, marialva, pelo reboliço das espadas: «No século XVIII, dos encontros de embuçados em qualquer ruela do Bairro Alto, das escaramuças frequentemente sangrentas entre bandos rivais de passeantes da noite – como os celebrados Capotes Brancos e Capotes Negros, capitaneados pelo jovem Sebastião José de Carvalho e Melo e pelo Infante D. Francisco – passava-se ao duelo com lei própria. O morticídio tanto se exagerou que a lei, a civil como a canónica, exprobou o duelo e o fez perseguir de polícia, condenações e, até, excomunhões. Clandestino mais arreigado aos princípios das elites sociais e ao conceito de honra, o duelo continuava, criando os seus códigos, as suas regras próprias, tácitas, tradicionais ou mesmo claramente impressas e livremente vendidas nos livreiros. De tão praticado, quase se banaliza, não há aristocrata ou elegante de sociedade que não se bata pelo mais fútil dos motivos...»
De D. Miguel a fugir a mulheres em duelo
Ilegais os duelos – manteve-se a esgrima na alta roda, na preparação dos exércitos, no bom tom dos aristocratas. No Colégio Militar, fundado em 1803, sempre foi disciplina obrigatória – o que não se pode dizer é que tenha sido sempre paixão ardente de reis e príncipes. José Valarinho em Espadas e Floretes revelou que D. Miguel, antes ainda se chegar à coroa, a tentou, mas como espadachim foi um descalabro – sentia-se muito mais à vontade aos touros, que por isso, se viu na contingência de fugir, quando uma mulher o desafiou para um duelo. Por causa disso, por Lisboa circulou, então, pasquim onde constava, tratando-o simplesmente po V.A. – de Vossa Alteza: «Despeitada, a nova Ariadne provê-se de dois floretes iguais e sabendo que V.A. se achava uma noite no Campo Grande com seus notórios companheiros, vai ao sítio disfarçada; encontra-o, solta-lhe mil impropérios, apresenta-lhe uma das armas e provoca-o a um duelo. À vista do ferro homicida gela-se o sangue de V.A.; convulso de medo pede humildes perdões; mas, recobrando em breve o ânimo pela chegada dum dos seus gladiadores, grita-lhe que prenda a agressora. Tal foi o fim desta cómica aventura».
Dela, dessa fogosa «nova Ariadne» nunca se soube o verdadeiro nome – e tal não aconteceu em França, onde ficou célebre o duelo entre Madame Polignac e Madame Nesle – que numa manhã de neblina no Bosque de Bolonha em Paris disputaram à espada o amor do Duque de Richelieu e um ilustrador da cena as apresentou esgrimindo em tronco nu.
480 réis para ver Madame Bosco
E foi exactamente contra os exércitos de D. Miguel que, em 1830, Henri Petit, famoso espadachim francês, veio para Portugal combater pelos liberais de D. Pedro - e do cerco do Porto saíu lesado num pulso. Por cá ficou - a ensinar a arte da esgrima nas cortes de D. Pedro V e de D. Luís, foi professor de D. Carlos. E pela sua sala de armas aprendeu também Madame Bosco – que em Dezembro de 1849 tinham nos jornais de Lisboa «reclame» que dizia: «Grande Academia de florete e espada. Em beneficio de Madame Bosco, Professora de Esgrima, na sala do Theatro de S. Carlos. Domingo 9 do corrente, das onze horas, até ás quatro da tarde, Madame Bosco sustentará o assalto, e convida ao mesmo tempo os amadores para que a honrem com a sua presença, para verem a novidade e destreza com que uma Srnhora maneja as referidas armas. Os bilhetes acham-se à venda no mesmo dia na rua nova dos Martyres. Preço 480 réis.»
Camilo, a mãe do janota e a perna ferida
Ao longo de séculos e séculos sempre houve, pois, nos duelistas a imagem por vezes rocambolesca de personagens de romance – mas, de quando em quando, foram eles próprios, os romancistas, que entraram no jogo. Por se «aproximar demasiado» da poetisa Maria da Felicidade Browne, mulher do opulento negociante de vinhos do Porto, Manuel de Clamouse Browne, Camilo Castelo Branco bateu-se à espada, na Afurada, com Ricardo Browne, o filho dela. Ricardo tornara-se já o mais célebre janota do Porto, deslumbrando a cidade com o seu estilo, o luxo dos cavalos e das carruagens – ditando a moda dos seus peraltas por meados do século XIX. Era tal o seu domínio nesse «arbítrio das elegâncias» – que se dizia que os janotas até a surdez lhe imitavam. Ganhou a Torre de Espada – por ter tentado salvar alguns dos náufragos do vapor Porto que soçobrou à entrada da barra do Douro. E para além de velejador e nadador – era «esgrimista de respeito». Quando as relações de Maria Brown com Camilo deram lugar a «murmurações na sociedade portuense» - Ricardo exasperou-se. Primeiro, houve entre ambos cenas de pugilato – e depôs um duelo. Apesar de não saber «jogar à espada», Camilo aceitou-o – e de lá saiu ferido numa perna.
A Questão Coimbrã terminou igualmente de arma em riste – entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão, em Fevereiro de 1866, na Arca de Água, no Porto. Contra todas as expectativas que saltavam dos media – Antero venceu-o. E depois Eça de Queirós escreveu numa crónica: «Há-de haver sempre duelos. É evidente que, enquanto os jornais publicarem em letra gorda e glorificadora as actas do desafio; enquanto os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala pálido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode; enquanto na rua burgueses pararem pasmados, murmurando ao ouvido da família: Lá vai ele! Foi aquele que se bateu!, nem o código, nem o bom senso, nem as melífluas máximas humanitárias impedirão jamais que o homem, publicamente ridicularizado ou publicamente injuriado, salte sobre a sua espada, gritando à turba: Cá vou eu defender a minha honra!»
Ramalho, o soco, a bengalada e a espada
As pontas das espadas eram protegidas por botões – para evitar ferimentos e foi ainda no século XIX que surgiram as primeiras máscaras – para protecção dos olhos. A esgrima continuava a ensinar-se nas principais escolas nacionais: Colégio dos Nobres, Colégio Militar, Colégio Académico – e espalhava-se por salões particulares e clubes chiques: o Grémio Literário, o Turf Club, o Ateneu Comercial, o Real Ginásio Clube Português. Em 1897, António Martins abriu a Escola Nacional de Esgrima – e entre os seu notáveis logo surgiu Ramalho Ortigão. Que ao mestre mandou carta que dizia: «Muito lhe agradeço a minha nomeação de sócio honorário da sua escola, distinção tanto mais imerecida quanto eu não sou um homem que sabe bater-se; sou apenas um homem que quando é preciso se bate. Considero a sua escola uma das mais úteis instituições sociais, e faço pela prosperidade dela os mais calorosos votos. Todo aquele que não tem a ginástica precisa para se defender quando o agridem, e para castigar, ou com uma espada ou com uma simples bengala, os que lhe faltem ao respeito que todos nós devemos uns aos outros, torna-se pela sua incapacidade física um elemento perturbador da ordem moral, e é um cidadão desprezível, porque é um caloteiro da honra, cujas dívidas terão fatalmente de ser pagas pelos nervos e pelos músculos dos outros. Além de que, para dignidade de cada um e para sossego de todos é útil considerar este aforismo: É melhor um murro fechado na mão que dois regimentos de polícia a voar. Ora, é pela prática da esgrima na sua escola, que se chega a esta confiança num soco e a essa fé numa bengala, que se não aprende nos livros, e que as demais escolas, primárias, secundárias e superiores, infelizmente nos não ensinam...»
Finalmente, o desporto, o torneio
Para a «defesa romântica da honra» havia, já se viu, um passado de séculos. Faltavam as competições, a esgrima como «sport». A primeira que em Portugal se fez foi em 1898 – e o Tiro Civil de 15 de Junho escreveu: «Promovido pelo distinto e conhecido sportsman senhor António Martins, director da Escola Nacional de Esgrima e um dos mais hábeis e conceituados professores da arte de jogar as armas, realizou-se no dia 8 do corrente no Salão da Trindade, o torneio de esgrima que foi, a todos os respeitos, uma festa de primeira ordem. Na primeira poule, para alunos menores de 15 anos, obteve o primeiro prémio, um relógio de aço com cadeia de platina oferecido pelo Príncipe Real, o senhor Camilo Castelo Branco (que, obviamente, era outro, não era o escritor...) e o segundo prémio, uma abotoadura de ouro com turquesas oferecida pelo senhor Infante D. Manuel, o senhor Fernando Ferreira de Castro. Na segunda parte, segunda poule – juniores coube ao senhor Eduardo Ferreira de Castro o prémio, um magnífico alfinete de ouro com os emblemas da esgrima em platina, florete e caraça, prémio oferecido por Sua Magestade El- Rei».
António Martins era mestre de armas de D. Carlos – e dos príncipes também. Nascido em Torres Vedras em 1857 descobrira a arte no Regimento de Cavalaria 4 através de David Augusto da Silva e António Baldaque da Silva. Antes de fundar a Escola Nacional de Esgrima, na Rua do Arsenal – ensinou no Real Ginásio Clbe Português, auxiliando Henri Petit. Professor da Escola Naval e da Escola do Exército, em 1892 o Ministério da Gerra enviou-o à Escola de Cavalaria de Saumur, para «estudar os métodos de esgrima de sabre a pé a a cavalo» - e no ano seguinte voltou a França para participar em vários festivais.
Foi, sem sombra de dúvida, o primeiro ícone da esgrima nacional que aos primeiros anos do século XX era a principal modalidade nacional, só muito tempo depois o futebol e o hipismo lhe começaram a pedir meças – e o Tiro Civil de 15 de Maio de 1902 tratou combate entre António Martins e o italiano António Conte, vencedor da prova de sabre nos Jogos Olímpicos de 1900, como um dos mais impressionantes acontecimentos sociais que em Lisboa alguma vez se tinham visto: «Foi verdadeiramente sublime e académico. Martins, se bem que se defrontasse com um mestre seguindo uma escola diversa da sua, nem por isso deixou de mostrar quanto vale, em correcção, rapidez e vigor fora do vulgar. Não podemos, com verdade, dizer qual foi o vencido ou o vencedor porque de parte a parte se fez tudo quanto em esgrima se pode fazer. Martins, duma correcção hors ligne, opôs ao seu contentor uma resistência enorme e mostrou-se digno de tão célebre adversário».
No Teatro de S. Carlos, o brilho...
A António Martins cedeu o governo o salão nobre do Teatro de S. Carlos, que era, então, um dos poucos locais com iluminação eléctrica em Lisboa, para nova sala de armas do Centro Nacional de Esgrima – com uma condição: fornecer instrutores de ginástica às escolas e ensinar esgrima aos oficiais do exército que o quisessem. Na inauguração estiveram D. Carlos e D. Amélia – e entre cada combate cantaram-se árias de ópera. Do ambiente do Centro, falaria Artur Portela: «Era a grande sala por reunir ali a jeunesse dorée do tempo, entremeada por velhos generais respeitáveis e fartamente embigodados, tal como Pimentel Pinto; jornalistas, como Pinheiro Chagas, gordo, fatigado e amável e numerosos aristocratas, um deles o Conde de Penha Garcia, de lâmina fulgurante – numa parada de valores que tanto sabia conversar como sorrir, terçando as armas brancas da ironia mais espiritual. Valia um título: era mesmo de bom tom frequentar o Centro. Aqui e ali espalhavam-se os gilets brancos nas cadeiras pregueadas da sala, narrando o último potin das Cortes, entre o fumo dos charutos caros ou, então, em voz baixa, na roda dos íntimos, a aventura galante que perpassava nas ruas da cidade, discreta e secreta, como a Luísa do Primo Basílio...»
Sabre, a predilecção de D. Carlos...
E foi por essa altura que o Tiro e Sport traçou assim retrato ao rei que por lá passava, amiúde, no seu frenesim de «sportman»: «Sua Majestade El-Rei D. Carlos cultiva desde os sete anos a esgrima, tendo sido seus professores, primeiro o célebre professor francês Henri Petit, seguindo-se-lhe Luís Monteiro e António Martins. Tem sido com este último professor com quem durante maior lapso de tempo tem trabalhado Sua Majestade e o mestre não se cansa de tecer elogios às excelentes qualidades que Sua Majestade possui como esgrimista. Mais de uma vez temos ouvido a Martins que Sua Majestade é um habilíssimo atirador de espada e sabre, dificílimo pelo jogo inteligente e metódico. Aproveitando maravilhosamente o seu coup d´oeil, prepara o ataque com grande prudência e precisão, mas à primeira falta do adversário precipita-se com uma rapidez pouco vulgar em homens da sua estatura e toca fatalmente. É sobretudo ao sabre, arma da sua predilecção, em que melhor revela o seu temperamento de atirador forte que é. Adversário franco e leal, acusa com bonomia todos os golpes que recebe e devolve com presteza fora do vulgar. São notáveis os seus golpes ao braço e a finta de ventre que Sua Majestade executa com rara perfeição, sendo poucos os adversários que têm conseguido parar estes golpes. Possuindo Sua Majestade qualidade de esgrimista em tão elevado grau, eis porque o vemos sempre entusiasta, seguindo todas as peripécias dos assaltos a que assiste, indicando com prontidão e rapidez admiráveis os toques dos contendores».
Por António Simões, Jornal A Bola