![]() << voltar A mais de 70 km/hora num... «carro do Diabo»! A bicicleta que o ginasta fabricou com um... cano de espingarda e a aventura que foi ir com ela de Lisboa a Sintra. O rico industrial do Linhó que cruzou festa religiosa e por pouco não foi linchado. E a história de José Bento Pessoa, o primeiro recordista mundial e o primeiro profissional do desporto português – que ficou nome de estádio porque Salazar achou que merecia mais do que ele. Foi uma tosca máquina de madeira de duas rodas, semelhante à funâmbula que se usava no Circo Price da Calçada do Salitre o primeiro vestígio de ciclismo em Portugal. Fê-la Artur Seabra, um dos fundadores do Ginásio Clube Português – algures pela segunda metade do século XIX. Depois, ao saber que por França se construíra velocípede de aço, Seabra, que para além de ginasta era conhecido pelas suas engenhocas, usou um cano de espingarda para construir outro «byciclo» – e com ele se exercitava na cerca do Hospital de Rilhafoles, palácio que se transformara em hospício de doidos, quem passava, contava-se, achava que era um louco também em estranhas acrobacias. A última vez que esse «byciclo» de Artur Seabra andou foi numa excursão a Sintra para que desafiou João Possolo. Possolo também era aluno de Luís Monteiro no Real Ginásio Clube Português – e em 1893 ganhou medalha de ouro num torneio internacional em Badajoz, foi o primeiro triunfo no estrangeiro de um desportista nacional. Quatro anos passados, tornou-se o primeiro ginasta amador no mundo a dar em triplos salto mortal da primeira para a terceira barra e em 1901, quando no GCP já havia ginástica «salutar e pedagógica para mulheres» e se fazia, «gratuita e generosamente ginástica educativa e correctiva nos asilos pobres da Assistência Social», ele, Walter Awata e Levy Jenochio deslumbravam plateias com espectáculo de «voos castiços de olhos vendados e séries sem pousar», rezavam crónicas desse tempo. E a aventura em que Artur Seabra pôs João Possolo contou-a assim Gil Moreira em A História do Ciclismo Português: «Quando chegaram ao alto da Avenida deu-se o primeiro percalço. O aparelho já estava velhote e, além disso, funcionava em condições precárias. Formado de arranjos e peças adaptadas partiu-se-lhe um pedal. Possolo era, porém, brioso e dotado de uma tenacidade pouco vulgar. Tinha-se combinado o passeio e este havia de fazer-se. Pedal a mais, pedal a menos, que importava? Prosseguiu a marcha pedalando só com um pé! Já próximo de Sintra, numa das ladeiras, ocorreu outro incidente e esse podia ter provocado consequências graves. Felizmente, assumiu apenas, apesar de algumas contusões e arranhaduras para Possolo, um aspecto picaresco. Precisamente numa rampa, quando a descia vertiginosamente, fugiu o outro pedal! Possolo fez prodígios de equilíbrio, mas surgiu uma cova inoportuna e traiçoeira. A máquina fez um pino e foi arremessado a grande distância. Os calções que vestia ficaram esfarrapados, «alguma coisa indiscretos» - empregando a metáfora do narrador – e o pouco afortunado ciclista entrou em Sintra, na casa de Frederico Macieira, com um casaco a servir de saiote!» «A besta puxava sentada...» Bicicleta por 170 dias de trabalho A sorte do tornozelo partido Ciclista por acaso, antes Bento Pessoa praticara natação, atletismo e remo – e jogara futebol como guarda-redes. Partiu um tornozelo, numa queda que “lhe poderia ter sido fatal”, como se pode ler na biografia de Romeu Correia, complicada estava a recuperação – e um médico aconselhou-lhe, então, exercícios de bicicleta. Filho de um comerciante de calçado – achou que comprar uma era «extravagância em demasia», pediu emprestada a um amigo, depois alugou outra. Com 17 anos, em 1891, viu uma corrida – e sonhou imitar José Diogo d´Orey... Tornou-se, assim, primeiro português a bater um record do mundo, o primeiro português a ganhar dinheiro com o desporto. Em 1896 deixou a Figueira da Foz, foi viver para Lisboa – e deixou de correr com bicicleta Brennador, passou a correr com uma Raleigh, representando a Casa M.A. Esteves (Sucessores), que para isso lhe pagava 40 mil réis por mês. E num «Grande Prémio Internacional» disputado no Velódromo D. Carlos – ganhou prémio de 100 mil réis. E gastara das Caldas da Rainha a Lisboa, 5.12 horas - o feito foi reportado de «estupendo», rezam as crónicas que ganhou uma medalha de ouro «que valia mais de 20 mil réis» (!) e outro tanto «recebeu em dinheiro». O recorde do mundo a... 70 à hora! Várias vitórias retumbantes assinou na Alemanha, na França e em Itália – mas nenhuma como a que levou do velódromo de Jonction diante do famoso suíço Champion. O «tempo fantástico» de Chamartin levantara, sobretudo entre os suíços dúvidas e piadolas, que marca assim só mesmo com os cronómetros que a tiraram: os rosskopf, desacreditados por serem fabricados em Espanha. Houve então quem desafiasse Bento Pessoa para tira-teimas, duelo em Genebra – com Champion, porque a Suíça ganhara já fama na indústria dos relógios e ele era o seu maior ídolo, considerado o maior ciclista mundial. No contra-relógio, Bento Pessoa repetiu a marca de Madrid e logo de seguida bateu Champion no confronto em linha, recebendo de prémio 270 mil réis – o equivalente a 540 dias de salário de um operário graduado. E nesse dia toda a gente ficou com a certeza – de que era mesmo português o ciclista mais rápido do mundo. Calcularam-lhe ponta-final a 70 km/h, nos primeiros alvarás que o governo civil haveria de emitir para licenças de condução automóvel havia um ponto que dizia que era proibida velocidade superior a 30 km/h fora dos povoados – e a 10 km/h dentro deles. Salazar sem nome no estádio Por António Simões, Jornal A Bola |
