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Da espingarda aos 9 anos ao escândalo do romance...
Os primeiros patins que Portugal teve eram de D. Maria Pia. Que ao ver o filho e o neto mortos no Arsenal acusou João Franco, o ditador. Disso se fala – e de muito mais: do ambiente que se vivia a caminho do Regicídio, de D. Carlos a brilhar em torneios de tiro e de um romance que destruiu ainda mais a imagem da Corte, falando de relações lésbicas e de um suicídio por amor contrariado...
John Joseph Merlín era um mecânico da Flandres que vivia em Londres. Em 1760 inventou patins para levar, extravagante, a um baile de fantasias. Entrou no salão com eles nos pés, a tocar violino - perdeu controlo de si, enfeixou-se num espelho caríssimo, partiu-o, levaram-no ferido para o hospital.
Durante 30 anos mais ninguém quis saber da bizarria. Depois, em França, outro belga voltou à ideia: sobre plataforma de aço pôs quatro rodas de madeira, deu-lhe o nome de patins de terra. Não mais parou o seu furor, viraram atracção em óperas e bailados, por salões e cafés. Os primeiros que apareceram em Portugal eram de D. Maria Pia, mãe de D. Carlos. Com eles andava nos corredores do Convento de Mafra. Ofereceu-lhos em 1873 a Condessa de de Daupiás, mulher de Pedro Daupiás.
Ele, Pedro Daupiás, era descendente de Jácome Ratton, francês que no tempo do Marquês de Pombal se estabeleceu em Lisboa e fundou as primeiras fábricas portuguesas: de papel, de fiação de algodão e seda em Tomar, de chapéus em Elvas, de louça e vidros no Calvário. Daupiás estudou em Paris – e por herança tornou-se proprietário da fábrica de lanifícios do Calvário em Alcântara e através dela enriqueceu. Aos seus operários dava apoio na invalidez e na velhice, novidade por cá – chegou a sustentar mais de 100 assim. Ganhou fama a... «tocar ao florete», que era como então também se tratava a esgrima, Henri de Petit fora seu mestre, como fora de D. Carlos e de D. Luís. Protegeu artistas, transformou o seu palácio em galeria para mais de 400 quadros. Amiúde lá organizava saraus e concertos com os melhores músicos nacionais – de Rei Colaço a Viana da Mota. Em 1888 foi vice-presidente da comissão executiva da exposição industrial portuguesa que se realizou na Avenida da Liberdade – e as festas grandiosas terminaram com a morte da condessa Daupiás. Entrou Pedro em grande amargura, seguiu-se-lhe complicado processo de partilhas, e com ele o aresto por sentença provisória de todos os seus bens. A 25 de Janeiro de 1900, depois de percorrer pela última vez as oficinas da sua fábrica e os arruamentos do seu jardim encerrou-se no seu quarto e desfechou um tiro de revolver na cabeça.
E patins tiveram depois igualmente D. Carlos e D. Afonso – e D. Luís Filipe e D. Manuel. E um par deles que se encontrou no Paço de Vila Viçosa é relíquia na sala de troféus da Federação Portuguesa de Patinagem.
Promessa ao Barão de Coubertin, logo cumprida...
D. Carlos tinha nove anos – e escreveu carta pedindo a um dos ajudantes de campo de D. Luís, que lhe comprasse espingarda de caça «de dois canos, para pólvora e chumbo» - e que não dissesse nada «nem ao pai, nem à mamã», que lha entregasse, «em segredo», no no quarto. E junto do pedido deixou o dinheiro para a compra. Conseguiu apenas uma de brincar - e foi com ela que atiçou uma das suas maiores paixões. Ainda no século XIX, D. Manuel de Noronha, fidalgo da melhor linhagem, ganhou em Nice um torneio de tiro. D. Carlos era já então um dos seus mais perigosos adversarios. Tiro praticava-se desde 1810 na Sociedade de Tiro aos Pombos da Real Tapada da Ajuda, numa carreira que D. Luís mandara construir.
Havia um alvo no Paço de Vila Viçosa – e, a distância de 30 passos, todos os dias D. Carlos acertava dez vezes consecutivas no mesmo buraco de bala, na mouche. Manuseava com igual pontaria infalível espingardas de caça ou de de guerra, pistolas ou revólveres – e à pistola era capaz de enfiar sucessivas balas em buracos de fechaduras a mais de 50 metros. Em 1906, num torneio em Rambouillett que o pôs na primeira página de uma famosa revista francesa, elogiando-lhe a «perícia», D. Carlos conheceu Pierre de Coubertin. O Barão que dez anos antes relançara os Jogos Olímpicos em Atenas lamentou-lhe o facto de «uma das mais antigas casas reais europeias não ter sequer um representante no COI» - e logo rei lhe prometeu resolver a questão. Mal regressou a Lisboa indicou D. António de Lencastre, médico da Real Câmara, que publicara trabalhos científicos sobre o raio X que mereceram citações e elogios em revistas inglesas e americanas, para o cargo. E assim Portugal teve um elemento no COI - antes ainda de ir aos JO.
Ginástica, esgrima, equitação...
José Brandão escreveu a seu propósito: «Conhecido como grande apaixonado da vida ao ar livre, D. Carlos não perde muito tempo dentro dos gabinetes da governação. O rei leva a vida entre as longas caçadas de Vila Viçosa, Sintra ou Mafra e a prática de tudo o que é bom desporto na época. Joga ténis quase todos os dias nos courts que manda fazer no palácio das Necessidades. Monta a cavalo por tudo quanto é canto para a equitação. Corre de bicicleta nas provas desportivas do velódromo da Palhavã. Entra em competições com os seis Peugeots que tem na garagem. Dedica-se à esgrima de forma exímia. Devota-se com toda a alma às coisas do mar. Quer sejam os bons banhos na baía de Cascais ou as regatas com o iate Maris Stella muito do seu tempo vai para a área da investigação oceanográfica onde produz obra de reconhecido valor. A sua educação fora orientada por alguns dos melhores mestres da altura. Júlio Joubert Chaves inicia-o nas primeiras letras. Depois, António José Viale e Alves de Sousa ensinaram-lhe português, latim, grego, geografia e história. Aprendeu alemão com Schneider e Röder e inglês com Coolinggrige e Davidson. Na química, física, matemática e história natural, foi seu professor Augusto José da Cunha. De desenho foi primeiro mestre Teodoro da Mota. Na música recebeu lições de Manuel Inocêncio dos Santos. Na ginástica teve Luís Monteiro e no jogo de armas contou com Henri Petit e António Martins. Foram o coronel Vito Moreira e Gromicho Couceiro quem lhe ensinaram equitação e Maria Teresa de Assis Mascarenhas quem o assistiu na educação doméstica. Teve lições de pintura com Miguel Ângelo Lúpi e Henrique Casanova e colheu ensinamentos de zoologia do professor Manuel Paulino e de Alberto Girard. Desportista, caçador, cientista, agricultor e artista, dotado de um grande talento para a pintura, D. Carlos evidencia-se, sem favor, como um dos reis mais cultos de toda a história portuguesa. D. Carlos vivia como rei de um País de que não desejava ter muitas maçadas. Entre as maçadas e as caçadas não hesitava na escolha...»
«Mentiroso, soberbo, devasso...»
Dizia-se que no estrangeiro tratava Portugal como... «piolheira», parece que nunca o disse de ipso, mas na nódoa nunca se livro e os anos foram passando – e em rodopio correndo cada vez mais a ideia, por vezes distorcida, que se criara de si: que D. Carlos era «mentiroso, soberbo e devasso, só amigo de depauperar o país». Conta Rui Ramos, na biografia que lhe fez, que era artista de primeira água mas que para o povo que o ignorava - «era Henrique Casanova quem lhe pintava os cartões». Que era «naturalista apreciado por sábios estrangeiros», mas que o que se dizia era que quem fazia as descobertas oceanográficas não era ele, era Albert Gerard, seu colaborador. Até Fernando Pessoa entrou na onda - e depois do Regicídio ainda se referia «à ignóbil figura de D. Carlos, que o Diabo o guarde». Que só num ponto, havia acordo: era «destemido e valente, sempre dado ao sport» - coisa que lhe vinha de pequenino.
Bacalhoa, o escândalo do romance
Para o desacreditar ainda mais a Coroa, no início de 1908 apareceu O Marquês da Bacalhoa. Pressentindo-lhe o escândalo, a censura franquista proibiu-o – e apesar de custar 800 reis depressa desapareceram os seus 6000 exemplares. Raul Brandão diria: «Fizeram mal em proibir o Marquês da Bacalhoa . Já há quem tenha dado por um exemplar três mil reis, e o preço corrente é agora de dez a quinze tostões... Se o queriam inutilizar apreendessem-no, tanto mais que toda a gente sabia onde era impresso».
Fácil era ligar as personagens: o marquês era D. Carlos, na realidade, proprietário da Quinta da Bacalhoa; a marquesa era D. Amélia; o conselheiro João Nunes dos Santos era João Franco; o D. Álvaro de Luna era Mouzinho de Albuquerque; a Maria de Silves era a condessa de Sabugosa; e a condessa da Freixosa era a condessa de Figueiró, a famigerada Pepa Sandoval, amiga da rainha. Logo se denunciou, entre outras coisas mais, que o romance «abocanhava a dignidade da rainha», insinuando-lhes «amores lésbicos» e que por causa dela, dos «amores contrariados», se suicidou Mouzinho de Albuquerque, o herói de África.
Quem o escreveu? António de Albuquerque, que Raul Brandão descreveu assim: «Este Albuquerque, conhecido pelo Lêndea, é o último descendente, pelo pai, do grande Afonso de Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto João de Barros. Ainda aqui há anos, quando o rei visitou uma terra de província e se hospedou na casa dele, saíram das lojas caixotes de loiça da Índia, que nunca tinham sido abertos. Ele tem tido uma vida de aventuras; bateu-se em duelo em Madrid, caçou no Cabo com lordes, tocou guitarra em Trouville e teve uma loja de instalações eléctricas na Itália. Agora é jornalista, escritor, poeta, e publica este livro de escândalos, em que a rainha, senhora na mais alta
acepção da palavra, é posta de rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquilo - e pior - anda por aí de boca em boca há muito tempo. E não vem debaixo - vem de cima...».
«Venha o pior, venha o Diabo do Inferno...»
Com o tempo a correr para o Regicidio, era traçou Raul Brandão o ambiente que Portugal vivia em frenesim: «As coisas eram de tal ordem que só se ouvia dizer: Venha tudo, venha o pior, venha o Diabo do Inferno que nos livre disto! Até as mulheres estão furiosas com o Franco. Há-as que dizem: Eu vou matá-lo! Mas há também quem o defenda e aplauda como nenhum ministro foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena Rua do Ouro: Eu até agora dizia que o João Franco tinha uns c. que não cabiam em Lisboa. Agora, não, agora digo bem alto: o João Franco tem uns c. que não cabem em Portugal!» .
E Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria, não teve dúvidas, já então as não tinha: «A ditadura franquista, com os seus corregedores à maneira de Pina Manique, irritava a opinião, e pode bem dizer-se que muito contribuiu para acelerar a marcha da República». Nesse cenário aumentaram os fabricantes clandestinos de bombas artesanais – e um dia D. Carlos mandou a João Franco carta em que dizia: «Quanto aos anarquistas… não me admira que nestes momentos turvos alguns apareçam e alguma coisa tentem; mas para isso é que nós cá estamos e por certo nem a ti nem a mim será o medo que nos fará mudar caminho. Cada vez mais me convenço que o caminho que nós traçamos é o bom, para não dizer o único e portanto já sabes que me encontras ao teu lado, ao governo, por pensamentos, palavras e obras!»
Do conto de réis de vencimentos aos 132 mil das iluminações
Médicos, engenheiros, advogados, professores de todos os ramos de ensino, estudantes, oficiais superiores do Exército e da Armada, sargentos, alguns administradores de concelho, funcionários públicos de todas as categorias e de todos os ministérios, proprietários, lavradores, comerciantes, lojistas, empregados de comércio, actores, operários, cocheiros, condutores e guarda-freios, ferroviários e até agentes e guardas da Polícia iam engrossando a Carbonária Portuguesa – e ele, D. Carlos, não se poupava em gastos, por exemplo «mudava de iate como quem mudava de camisa» - e é outra vez José Brandão que diz: «O Amélia I depressa se torna pequeno para dar lugar ao Amélia II que não demora muito até ser ultrapassado pelo Amélia III a que logo sucede o Amélia IV. Entre outros casos mais ou menos conhecidos, fala-se na compra de dois prédios na Calçada das Necessidades que o rei adquire para os seus encontros extra-conjugais. O País era pobre, e se não podia ter um rico rei, muito menos podia sustentar um rei rico. A par com a famosa questão dos adiantamentos, que fazem da família real o maior devedor do erário público, na Câmara dos Pares do Reino, em 1906, são feitas acusações em que se afirma terem sido gastas nos arranjos da sala de jantares solenes do Palácio das Necessidades, e nas iluminações eléctricas deste Palácio e dos da Ajuda e Belém, quantias que rondam as fabulosas somas de 131 891$715 réis para o primeiro caso e 354 082$333 réis para os segundos. Desde 19 de Outubro de 1889 que D. Carlos recebe um conto de réis de vencimento por dia, importância que junto à dos vencimentos dos seus familiares custa ao País mais de 520 contos anuais, soma esta muito superior às que recebem as famílias reinantes de países mais ricos como a Noruega e a Dinamarca onde esses vencimentos são, respectivamente, de 1 203 200 e 481 700 coroas, ou seja, em réis 301 040$640 e 120 520$080 contos.»
«As minhas armas sempre carregadas»
O país em miséria agitava-se em greves e confrontos com forças da polícia – e D. Carlos voltou a escrever a João Franco, a incitá-lo: «Seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca, parar é morrer, e eu não quero morrer assim… nem tu! Sem luta não há prazer em vencer, e a vitória sem combate, e combate sério, nunca é uma vitória duradoura». Mas, de súbito, começou a perceber o chão minado que pisava. A brincar, costumava dizer:
- As minhas armas estão sempre carregadas, mas...
Uma vez nem sequer escondeu a apreensão de Franco:
- Oh! João, tu disseste que irias caçar no terreno dos republicanos. E se eles caçam a minha pessoa ou a tua?
- Pessoa alguma se atreveria, meu Senhor, retorquiu-lhe o presidente do Conselho.
- Eu sei lá, João... eu sei lá - ciciou D. Carlos.
Percebera que havia algo em ebulição, trágico talvez - e outro dia, passeando com o seu ajudante de campo, o tenente-coronel José Lobo de Vasconcelos, desabafou:
- Tu julgas que eu ignoro o perigo em que ando? No estado de excitação em que se acham os ânimos, qualquer dia matam-me à esquina de uma rua. Mas, que queres tu que eu faça? Se me metesse em casa, se não saísse, provocaria um grande descalabro. Seria a bancarrota. E que ideia fariam de mim os estrangeiros, se vissem o rei impedido de sair? Seria o descrédito. Eu, fazendo o que faço, mostro que há sossego no País e que têm respeito pela minha pessoa. Cumpro o meu dever. Os outros que cumpram o seu.
«Assino a minha sentença de morte, mas...»
No dia 31 de Janeiro de 1908, João Franco convenceu D. Carlos, que estava em Vila Viçosa à caçada, a promulgar decreto que agravava a situação dos oposicionistas detidos nos cárceres da ditadura – a deportá-los para as colónias de África ou para Timor. Ao assiná-lo, parece que o rei largou num murmúrio:
- Assino a minha sentença de morte, mas os senhores assim o querem...
No dia seguinte, caiu às balas de dois carbonários. D. Manuel I, o filho, o sucessor, anotaria no seu diário: «Aquele Terreiro do Paço estava deserto de guarda, nenhuma providência! Isso é que me custa mais a perdoar ao João Franco».
Ali mesmo, no olho da tragédia, Maria Pia, a velha rainha-mãe, largou imprecação a Franco, apontando para os cadáveres de D. Carlos e D. Luís Filipe estendidos no chão do Arsenal:
- A vossa obra, Senhor Presidente!... Diziam que o senhor era o coveiro da monarquia. Foi pior. Foi o assassino de meu filho e de meu neto.
E António Cabral, antigo ministro da monarquia, espalhou em mágoa:
- Se o Sr. João Franco tem abandonado o poder, desse por onde desse e houvesse o que houvesse, em vez de ir para a ditadura!... Quantos desgostos profundíssimos teria poupado à sua alma alanceada! De quantos danos teria livrado o País! Quantos desastres, quantos crimes, quantos infortúnios teria evitado!...
Alguns meses passados, num jornal republicano alguém escreveu: «O rei morreu na tarde do 1.º de Fevereiro, no Terreiro do Paço. A Monarquia morreu essa noite, no Paço das Necessidades»...
Por António Simões, Jornal A Bola